Na coluna desta edição, recebo a artista visual e arquiteta Morgana Souto Maior, cuja trajetória transita com naturalidade entre a arte e a arquitetura. Natural da Paraíba e radicada no Rio de Janeiro, Morgana construiu uma linguagem própria que une memória afetiva, identidade cultural e reflexão sobre o território. Sua produção revela cores, traços e estruturas que dialogam com suas origens nordestinas e com a paisagem urbana que hoje habita. À frente de uma galeria/atelier no Porto Maravilha, espaço simbólico de transformação na cidade, ela transforma o lugar em território de criação e encontro. Nesta entrevista, Morgana fala sobre o nascimento da artista, sua relação com o Rio, a presença permanente da Paraíba em sua obra, as experiências internacionais e o papel social da arte no mundo contemporâneo.
Chico Vartulli – Quando nasce a Morgana artista?
Morgana Souto – A Morgana artista não nasceu em um dia específico — ela foi se revelando. Nasceu no silêncio das tardes da infância, nas férias na fazenda, no interior da Paraíba, na referência artística da família, entre papéis e projetos de arquitetura, cores e imaginação. Nasceu quando entendi que a arte não era apenas expressão, era destino.
Ela nasceu no instante em que percebi que pintar era a minha forma de existir no mundo — não como fuga, mas como presença. A artista nasce toda vez que eu transformo memória em cor e identidade em arquitetura.
Chico Vartulli – O que levou você a se fixar no Rio de Janeiro?
Morgana Souto – Um amor. Me apaixonei por um paraibano que fazia residência médica aqui no Rio. Assim, o Rio de Janeiro me escolheu tanto quanto eu o escolhi. Há cidades que nos atravessam — o Rio me atravessou.
Sua luz, sua geografia dramática, o encontro entre o concreto e o mar dialogam com a minha pesquisa sobre identidade e território. Aqui encontrei expansão. O Rio me ofereceu palco, provocação e horizonte.
Chico Vartulli – Por que optou por abrir seu ateliê-galeria no Porto Maravilha?
Morgana Souto – O Porto Maravilha é símbolo de transformação. E a minha arte fala exatamente sobre isso: moradia, reconstrução, pertencimento, camadas de tempo.
Abrir meu ateliê-galeria ali foi um gesto poético e político. É ocupar um espaço que renasceu e transformá-lo em território de diálogo, memória e futuro.
Chico Vartulli – A Paraíba também está presente na sua arte?
Morgana Souto – Sempre. A Paraíba não é apenas origem — é raiz. Está nas cores vibrantes, na força do traço, na resistência silenciosa que atravessa minhas obras.
Minha arte carrega o Nordeste como linguagem afetiva. Mesmo quando pinto o urbano, há uma memória nordestina pulsando.
Chico Vartulli – Como foram suas incursões no exterior?
Morgana Souto – Levar minha arte para fora do Brasil foi perceber que identidade é linguagem universal. Cada exposição internacional é um grande diálogo entre culturas.
Eu sempre levo minhas arquiteturas simbólicas e volto com novos olhares. As experiências no exterior ampliaram minha percepção e reforçaram ainda mais quem eu sou.

Chico Vartulli – Quais são seus planos para os próximos 2 anos?
Morgana Souto – Consolidar meu ateliê-galeria como espaço de pensamento, e não apenas de exposição. Ampliar minha presença internacional.
Desenvolver projetos curatoriais que dialoguem com identidade feminina, território e memória. E, sobretudo, continuar produzindo com verdade. Crescer, mas sem perder a essência.
Chico Vartulli – Que papel social desempenha a arte?
Morgana Souto – Na minha percepção, a arte é espelho e ponte. Ela provoca, acolhe, denuncia, cura.
A arte nos ensina a ver — e ver é um ato revolucionário. Ela constrói consciência e pertencimento. Sem arte, a sociedade perde sensibilidade. Com arte, ela se reconhece.
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação



