À frente do Instituto Cervantes do Rio de Janeiro, José Vicente Ballester compartilha nesta entrevista os desafios e as conquistas de dirigir uma das principais instituições de difusão da língua e da cultura espanhola no Brasil. Ele fala sobre a vitalidade cultural do Rio e a receptividade carioca ao intercâmbio com o mundo hispânico. Destaca iniciativas que fortalecem o Instituto como espaço de encontro, diálogo e diversidade, indo além do ensino do idioma. Aborda também projetos comunitários e parcerias com universidades e centros culturais. Cineasta e pesquisador, comenta sua formação, suas referências teóricas e práticas e a relação entre cinema e reflexão cultural. Por fim, estabelece paralelos entre Rio e Barcelona e revela seus projetos futuros, voltados ao aprofundamento das conexões entre Brasil, Espanha e América Latina.
Chico Vartulli – Olá José Vicente! Como está sendo a experiência de dirigir o Instituto Cervantes do Rio de Janeiro?
José Ballester – Está sendo uma experiência muito rica, tanto no plano profissional quanto no pessoal. O Rio de Janeiro é uma cidade de enorme vitalidade cultural, com uma curiosidade muito genuína pela língua e pela cultura españolas e dos países da área hispanoamericana. Dirigir o Instituto Cervantes aqui implica um diálogo constante com inteletuais, artistas, instituições e públicos diversos, o que torna o trabalho dinâmico e estimulante. Além disso, há um componente humano muito forte: a receptividade carioca e a abertura ao intercâmbio cultural fazem com que o dia a dia seja especialmente gratificante.
Chico Vartulli – Quais as suas principais iniciativas à frente da instituição?
José Ballester – Uma das minhas prioridades tem sido fortalecer o Instituto Cervantes como um espaço de encontro cultural, para além do ensino da língua. Temos buscado ampliar parcerias com universidades, centros culturais e coletivos artísticos locais, promovendo atividades que dialoguem com a realidade brasileira. Outra linha importante é a valorização da diversidade do mundo hispânico. Nesse sentido, a Biblioteca Nélida Piñon ocupa um lugar central: trata-se de um acervo muito rico e diversificado, especializado nas culturas do mundo hispânico, que buscamos tornar cada vez mais vivo e acessível ao público. A biblioteca não é apenas um espaço de consulta, mas também de atividades culturais, como clubes de leitura, encontros com escritores, debates e ações educativas. Paralelamente, temos investido na ampliação de parcerias com universidades, centros culturais e coletivos artísticos do Rio, e na valorização da diversidade cultural da Espanha e da América Latina, entendendo o Instituto como um espaço de diálogo permanente com a cidade.
Chico Vartulli – Quais são as principais ações que o Instituto desenvolve para a difusão da língua espanhola?
José Ballester – O ensino da língua é um eixo central do nosso trabalho. Oferecemos cursos em diferentes níveis e formatos, atualização didáctica de professores, exames oficiais de certificação e atividades de extensão. Paralelamente, desenvolvemos ações culturais e científicas — como ciclos de cinema, leituras dramatizadas, recitais musicais, palestras e encontros literários, bem como parcerias com grandes festivais ncionais e internacionais de cinema, fotografia ou literatura — que permitem aprender espanhol de maneira contextualizada, associando a língua à cultura, a ciencia e às práticas artísticas contemporâneas.
Chico Vartulli – O Instituto desenvolve algum tipo de trabalho comunitário na cidade do Rio de Janeiro?
José Ballester – Sim, e esse é um aspecto ao qual damos muita importância. Desenvolvemos projetos de cooperação com instituições públicas e iniciativas sociais, especialmente na área da educação. Buscamos aproximar o Instituto de comunidades que tradicionalmente têm menos acesso a espaços culturais e ao ensino de línguas, promovendo atividades gratuitas, oficinas e ações formativas que reforçam o papel da cultura como ferramenta de inclusão e diálogo.
Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como cineasta?
José Ballester – Minha formação como cineasta foi bastante híbrida. Começou com estudos teóricos e acadêmicos. O cinema, para mim, foi desde cedo um espaço de reflexão sobre a imagem, a narrativa e o tempo. Ao longo dos anos, fui combinando o trabalho da investigação e a crítica do audiovisual com a docência, a gestão cultural e a curadoria, o que acabou enriquecendo minha visão do cinema como linguagem e como prática cultural.
Chico Vartulli – Quais são as suas principais referências (teóricas e práticas) na área?
José Ballester – Minhas referências vêm tanto do campo teórico quanto da prática cinematográfica. Do ponto de vista teórico, desde os clásicos como André Bazin e a leitura dos Cahiers do Cinema, junto teóricos como Walter Benjamin, e sua teoria sobre a reprodutibilidade técnica e a experiência moderna assim como os estudos de semiótica de Umberto Eco que foram fundamentais para a análise do audiovisual contemporâneo; e como não o contato com teóricos espanhóis como Romà Gubern, Luis Gasca, o J. Perez Perucha que foram fundamentais na minha formação. No plano prático, foram milhares de horas de visualização de filmes, além de participação em festivais e filmagens.
Chico Vartulli – Há proximidades entre as cidades do Rio de Janeiro e de Barcelona? Quais?
José Ballester – Acho que sim, e não apenas no plano paisagístico. Ambas são cidades muito cosmopolitas, por estarem ligadas ao mar, com uma forte relação entre espaço urbano, natureza e vida cotidiana. São também cidades muito criativas, onde a cultura ocupa um lugar central e onde existe uma tradição de experimentação artística. Além disso, tanto o Rio quanto Barcelona vivem tensões próprias das grandes cidades contemporâneas, o que as torna especialmente interessantes como laboratórios culturais e sociais.
Chico Vartulli – Fale sobre os seus projetos futuros.
José Ballester – A curto e médio prazo, meu foco está em consolidar projetos no Instituto Cervantes do Rio que aprofundem o diálogo cultural entre o Brasil, a Espanha e a América Latina. Paralelamente, continuo interessado em desenvolver projetos ligados tanto à literatura como ao audiovisual, à curadoria e à reflexão sobre as imagens contemporâneas. Mais do que projetos fechados, penso em processos abertos, que possam se transformar a partir do diálogo com outras pessoas, contextos e culturas.
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação




