Os últimos acontecimentos envolvendo violência praticada por crianças e adolescentes no Brasil acendem um alerta que não pode mais ser ignorado. Em Santa Catarina, adolescentes mataram um cachorro de forma cruel. Em outro caso, um jovem de 19 anos espancou uma criança de 12 por causa de um chiclete. Em mais um episódio estarrecedor, uma adolescente de 15 anos assistiu passivamente enquanto uma menina de 11 se afogava, sem pedir ajuda ou demonstrar qualquer reação.
O que esses episódios têm em comum não é apenas a idade dos envolvidos, mas a banalização da violência e a ausência de empatia, sinais claros de que algo está profundamente errado no processo de formação emocional e moral dessas crianças e adolescentes.
Do ponto de vista psicológico, não se trata de um fator isolado. Existe um conjunto de fatores sociais, familiares, culturais e políticos que contribuem para esse cenário. Crianças estão cada vez mais expostas a cenas de violência, seja dentro de casa, na comunidade ou, principalmente, nas redes sociais. Vídeos de agressões circulam livremente, acumulam milhares de curtidas e comentários, muitas vezes em tom de deboche. Essa exposição constante acaba naturalizando o sofrimento do outro.
É importante lembrar que o cérebro da criança e do adolescente ainda está em formação. Os valores morais, a noção de consequência e a capacidade plena de empatia continuam sendo construídos. Quando não há mediação dos adultos, seja por ausência física, desestrutura familiar ou falta de preparo emocional, essas referências passam a vir do ambiente externo, muitas vezes violento, narcisista e indiferente à dor alheia. O resultado é uma geração que ri da violência ou, pior, não sente absolutamente nada diante dela.
A família tem um papel central nesse processo. O acompanhamento dos pais é fundamental, inclusive quando a criança apresenta algum comportamento agressivo inicial. Em muitos casos, esses sinais são minimizados ou até autorizados pelos próprios responsáveis. A falta de limites desde cedo é um dos principais fatores de risco. A criança precisa aprender, ainda pequena, que seus atos têm consequências, que podem machucar o outro, e que isso não é aceitável. Esse aprendizado ocorre pelo exemplo, pela interação diária e pela postura firme e afetiva dos pais.
Outro ponto crítico é o monitoramento das redes sociais. Saber com quem a criança anda, o que consome na internet, os horários que cumpre, quem são seus amigos e as famílias desses amigos não é controle excessivo, é cuidado. Regras e limites precisam ser colocados desde cedo para serem internalizados. Quando isso falha dentro da família, a escola sozinha não dá conta e ainda mais em um contexto em que professores também sofrem agressões e desrespeito.
Os sinais de alerta costumam aparecer cedo: problemas de comportamento na escola, brigas frequentes, agressividade com colegas, desrespeito dentro de casa. Nada disso deve ser tratado como “fase” ou “coisa de criança”. Com o tempo, esses comportamentos tendem a se intensificar, levando a envolvimento com drogas, violência mais grave e relações marcadas pela agressividade. Quanto mais cedo houver intervenção, inclusive com acompanhamento psicológico, maiores são as chances de reversão.
A violência contra animais merece atenção especial. A psicologia aponta que a crueldade contra animais na infância é um dos indicadores importantes para o possível desenvolvimento de transtornos de conduta e, em alguns casos, de psicopatia na vida adulta. A ausência de empatia, de culpa e de preocupação com o sofrimento do outro não surge do nada, ela é construída (ou não desconstruída) ao longo do desenvolvimento.
É impossível ignorar também a responsabilidade do Estado. Políticas públicas consistentes fazem falta. Passam governos e pouco se avança em melhorias estruturais: escolas integrais de qualidade, equipes multidisciplinares, projetos de mediação escolar, apoio psicológico, planejamento familiar, creches e suporte real às famílias mais vulneráveis. Quando a família e a escola falham, o “continente” dessas crianças passa a ser a rua, o crime organizado, os grupos violentos, que sabem exatamente onde estão os mais frágeis.
No fim, a pergunta que fica é incômoda, mas necessária: que tipo de sociedade estamos construindo quando a violência deixa de causar indignação? Cuidar da infância não é apenas proteger fisicamente, é formar emocionalmente. E isso exige presença, limites, exemplo, políticas públicas e, sobretudo, responsabilidade coletiva.
Andreia Calçada é psicóloga clínica e jurídica. Perita do TJ/RJ em varas de família e assistente técnica judicial em varas de família e criminais em todo o Brasil. Mestre em sistemas de resolução de conflitos e autora do livro “Perdas irreparáveis – Alienação parental e falsas acusações de abuso sexual”.


