Chico Vartulli – Olá Ruth! O que você considera singular na biografia de Eva Klabin?
Ruth Levy – O que a vida de Eva tem de mais singular é o fato de ela ter sido uma grande colecionadora, que deixou um extraordinário legado para a cidade do Rio de Janeiro e para o mundo das artes e da cultura. Ela dedicou anos da sua vida a reunir obras de arte excepcionais e a planejar como transformar sua casa em um museu, para compartilhar esse patrimônio cultural incalculável.
Além disso, Eva foi uma mulher à frente do seu tempo, que viveu intensamente uma vida rica, multifacetada e única. Sua paixão pelas viagens a levou aos quatro cantos do mundo, em lendários e luxuosos navios. Era amante da música e dedicou um espaço de sua casa especialmente para esta arte. Cultivava as amizades e se dedicava à família. Depois de viúva e sem filhos, dedicou-se com entusiasmo à criação do museu que imortalizaria o seu nome.
Chico Vartulli – Como está estruturada a obra Retratos de Eva Klabin?
Ruth Levy – Penso no livro como um álbum de memórias, uma biografia fragmentada, “desconstruída”, na qual as histórias são como retratos da vida da colecionadora. Não segui uma cronologia ou uma ordem de importância entre as histórias. Elas foram surgindo e sendo escritas de forma espontânea. São 15 crônicas, que tratam de passagens da vida pessoal, da paixão pelas viagens, pela música e pelos cães, de algumas amizades, da formação da coleção, de suas residências na Lagoa e na serra do Rio, da relação com sua modista predileta e os enxovais que encomendava a uma bordadeira de Belo Horizonte, entre outros. Este ano, a casa-museu criada por Eva Klabin celebra 30 anos de sua abertura ao público, e o livro será uma forma de homenagear a colecionadora pelo importante legado cultural que deixou para a cidade do Rio de Janeiro.

Chico Vartulli – Quais foram as fontes documentais que você utilizou para redigir a obra?
Ruth Levy – Sobretudo o arquivo pessoal da colecionadora, que conta com documentos textuais, fotografias e plantas de arquitetura. Os registros cobrem diversos aspectos da vida de Eva, como as relações familiares e sociais; sua vida como colecionadora e a relação com marchands, outros colecionadores e instituições; a sua vida doméstica e financeira; as inúmeras viagens realizadas, o gosto pela moda, e muito mais.
Chico Vartulli – Você coordenou o processo de digitalização do acervo da colecionadora Eva Klabin. Como se deu esse projeto?
Ruth Levy – Respeitando a organização do arquivo, que foi feita há muitos anos, fiz uma revisão e atualização de toda a classificação e organizei o material para a digitalização. Por serem mais de 30 mil páginas para digitalizar, foi um projeto realizado ao longo de muitos meses. Contamos com o profissionalismo da DocPro, empresa que se encarregou do serviço de forma impecável.
Chico Vartulli – Como é constituído o acervo da colecionadora Eva Klabin?
Ruth Levy – Podemos dizer que o coração do acervo de Eva Klabin é a coleção de obras de arte, com mais de duas mil peças que cobrem um arco de tempo de quase 50 séculos, do Egito Antigo ao Impressionismo. Mas, em uma casa musealizada, sendo também um museu que retrata o estilo de vida de uma pessoa, de uma determinada época, e o contexto social em que ela viveu, o conceito de acervo se amplia e podemos considerar que os registros mais diversos compõem esse acervo. Então, além dos já mencionados acervos arquivísticos, temos outras coleções deixadas por Eva na casa, como a de livros e revistas de sua biblioteca particular, a de seu guarda-roupa, que constitui um fabuloso acervo de moda, e outros objetos pessoais e de uso doméstico; além da própria casa, sua arquitetura e decoração, que entendemos também como acervo.

Chico Vartulli – Como museóloga da Casa Museu Eva Klabin, quais são os projetos que você tem desenvolvido na instituição?
Ruth Levy – A atuação é bem ampla e abrange as áreas de projetos, exposições, publicações, acervo e pesquisa, conservação, entre outras. Dedico-me bastante aos temas que envolvem a memória da casa e da colecionadora, com a gestão dos acervos e a produção de pesquisa. Além dos dois livros que escrevi, A Casa da Lagoa, de 2023, e Retratos de Eva Klabin, lançado agora, coordenei este ano um projeto para a coleta de depoimentos em vídeo sobre a Eva e a instituição. A criação do guia da Casa Museu no aplicativo Bloomberg Connects foi outro projeto recente que foi incrível desenvolver. Também participo das exposições realizadas no museu, contribuindo de diversas formas, com pesquisa, na montagem etc. A elaboração do novo plano museológico da instituição foi também um dos projetos importantes que coordenei. Além disso, são várias as atividades realizadas em parceria com universidades e com a Wikimedia Brasil, além do desenvolvimento de conteúdo para apresentação de palestras e produção de artigos.
Chico Vartulli – Você já atua há mais de 30 anos na Casa-Museu. Durante esse período, quais foram as principais conquistas do espaço e o que ainda falta para conquistar?
Ruth Levy – São três décadas de atividades e, ao longo desse período, a instituição se desenvolveu muito e se consolidou como uma referência cultural no Rio, ampliando e diversificando o público, a programação e os projetos educativos. A maior conquista tem sido transformar a Casa Museu em um espaço vivo de diálogo, de aprendizado e de troca, conectando o acervo à sociedade de forma relevante. Seguimos buscando ampliar o alcance digital e, como grandes desafios, garantir a acessibilidade e a sustentabilidade a longo prazo.
Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?
Ruth Levy – São muitos! Ainda há muito a realizar — novos projetos que contribuam para tornar o legado de Eva Klabin cada vez mais acessível, mediante uma instituição viva, pulsante e relevante, reconhecida como um espaço de reflexão e inspiração. Já vamos começar o ano que vem com uma exposição que certamente vai ser um sucesso, reconstruindo a vida social e cultural de Eva Klabin a partir do diálogo entre seu acervo de moda e obras de arte da coleção. Vamos também produzir novos conteúdos para o guia Bloomberg Connects e para o Google Arts & Culture, vamos continuar a digitalização dos acervos e as pesquisas e, quem sabe, começar um novo livro…
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação


