Há espetáculos que resistem ao tempo — e há aqueles que, além de resistir, se transformam com ele. É nesse território raro que se encontra “O Filho Eterno”, montagem da Cia Atores de Laura que retorna ao palco do Teatro Laura Alvim para uma curta temporada em Ipanema, celebrando 15 anos de trajetória e a expressiva marca de 300 apresentações.

Desde sua estreia em 2011, a peça, estrelada por Charles Fricks e dirigida por Daniel Herz, percorreu mais de 70 cidades brasileiras, alcançou praticamente todas as capitais do país e atravessou o Atlântico até Lisboa, consolidando-se como uma das produções mais relevantes do teatro contemporâneo nacional.

Baseado no romance homônimo de Cristovão Tezza, com adaptação de Bruno Lara Resende, o espetáculo se constrói como um mergulho íntimo na experiência de um pai diante do nascimento de um filho com síndrome de Down. Em cena, o que se revela não é apenas uma história particular, mas um retrato universal sobre expectativas, frustrações e, sobretudo, transformação.

A potência do íntimo

A encenação aposta na força da palavra e da presença. Sozinho no palco, Fricks sustenta um monólogo que oscila entre o desconcerto e a descoberta, conduzindo o público por uma jornada emocional que evita qualquer romantização fácil. O texto, denso e honesto, encontra na direção de Herz um equilíbrio delicado entre contenção e intensidade.

“Essa ideia de aceitar e amar a diferença sempre nos interessou”, afirma o diretor. “Ela rompe com a lógica narcísica e abre espaço para algo mais amplo, mais humano.” Essa perspectiva se materializa em uma encenação que privilegia o essencial — o ator, o texto e o encontro com o público.

Charles Fricks em O Filho Eterno

Uma trajetória marcada por reconhecimento

Ao longo de sua história, “O Filho Eterno” acumulou não apenas público — mais de 90 mil espectadores —, mas também reconhecimento da crítica. A atuação de Charles Fricks lhe rendeu prêmios importantes, como o Shell e o APTR de Melhor Ator, além de diversas indicações. A montagem também foi laureada pela direção de movimento de Márcia Rubin e pela sensibilidade de sua equipe criativa.

Mas talvez o maior prêmio seja sua permanência. Em um cenário teatral frequentemente marcado pela efemeridade, a longevidade do espetáculo fala por si. “Cada sessão é diferente”, comenta Fricks. “A reação da plateia renova a experiência — e isso mantém a peça viva.”

Um reencontro necessário

O retorno ao Rio de Janeiro, cidade que abriga a companhia responsável pela montagem, tem um sabor especial. Em cartaz até o dia 26 de abril, no coração de Ipanema, a peça oferece ao público a chance de revisitar — ou descobrir — uma obra que continua atual, urgente e profundamente humana.

Mais do que celebrar um percurso, “O Filho Eterno” reafirma sua capacidade de provocar reflexão e emoção, lembrando que o teatro, em sua essência, ainda é o espaço privilegiado para o encontro com o outro — e, inevitavelmente, consigo mesmo.

Serviço
Espetáculo: O Filho Eterno
Local: Teatro Laura Alvim – Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema
Temporada: até 26 de abril
Horários: sextas e sábados às 20h; domingos às 19h
Classificação: 14 anos
Ingressos: funarj.eleventickets.com
 
Instagram: @charlesfricks e @atoresdelaura
 
Texto: Rodolfo Abreu (@rodolfoabreu)
Imagens: Divulgação

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Rodolfo Abreu é colunista da Revista Vislun, jornalista e produtor cultural. Escreve sobre cultura, comportamento e cultura pop.

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