Esta entrevista percorre a trajetória de Carlos Mugnaini, profissional da hotelaria cuja carreira foi moldada por experiências internacionais e por uma visão estratégica da hospitalidade. Desde os primeiros passos nos Estados Unidos até a atuação em mercados sofisticados como Buenos Aires, a conversa explora como diferentes culturas influenciaram sua forma de liderar e interpretar o serviço de luxo. Ao longo do diálogo, são abordados os desafios e aprendizados de viver fora do país, bem como o impacto dessa vivência na construção de um olhar global. A rotina em um hotel de alto padrão, marcada por precisão operacional e atenção aos detalhes, também ganha destaque. A integração familiar em um contexto internacional e a capacidade de adaptação surgem como pilares dessa jornada. A entrevista ainda percorre outras experiências no exterior e a conexão com mercados como a Espanha. Por fim, aborda a visão sobre a mobilidade na carreira hoteleira e o papel de projetos inovadores, como o Roxy Dinner Show, na consolidação de uma trajetória orientada pela excelência contínua.


Chico Vartulli – Fale um pouco de suas vivências internacionais

Carlos Mugnaini – Minha relação com o mundo começou muito antes do primeiro embarque. Ainda jovem, em Guarulhos, eu observava com fascínio aqueles que viajavam para o exterior e retornavam transformados — não apenas com lembranças materiais, mas com uma nova forma de enxergar a vida. Aquilo despertou em mim uma inquietação que viria a definir minha trajetória.

Em 2005, iniciei minha jornada internacional nos Estados Unidos, no Colorado, em um programa de trainee gerencial em resorts e hotéis de luxo. O que começou como um passo profissional rapidamente se tornou uma imersão profunda na essência da hospitalidade. Permaneci até 2008, vivenciando funções operacionais diversas — da base ao estratégico —, o que me proporcionou uma compreensão rara e estruturante do negócio.

Esse período foi decisivo. Em um contexto ainda pouco conectado digitalmente, aprendi a lidar com o desconhecido, desenvolvi autonomia, resiliência e ampliei minha capacidade de adaptação cultural. Mais do que adquirir competências técnicas ou dominar novos idiomas, foi quando passei a compreender a hospitalidade como uma linguagem universal — e a me posicionar como um verdadeiro cidadão global.

Chico Vartulli – Como é para um brasileiro viver na Argentina?

Carlos Mugnaini – Viver na Argentina, particularmente em Buenos Aires, é uma experiência que combina sofisticação cultural com uma forte identidade latino-americana. Existe uma conexão natural entre brasileiros e argentinos, que vai além das diferenças e se manifesta em hospitalidade, respeito e proximidade emocional.

A cidade oferece um equilíbrio entre tradição europeia e autenticidade local, o que a torna um ambiente extremamente estimulante para quem atua na hotelaria de luxo. Essa vivência tem ampliado minha sensibilidade cultural e minha capacidade de leitura de diferentes perfis de hóspedes — um diferencial estratégico em operações internacionais.

No âmbito pessoal, é uma experiência igualmente rica. Viver em outro país nos desafia, nos reposiciona e nos convida a evoluir continuamente.

Carlos em suas vivências internacionais, Madrid 2007.

Chico Vartulli – Como é sua rotina diária no hotel, na Recoleta?

Carlos Mugnaini – A operação de um hotel de luxo é um organismo vivo, dinâmico e altamente sensível aos detalhes. Minha rotina é estruturada para equilibrar presença operacional, visão estratégica e conexão humana.

Inicio o dia com uma leitura completa da operação, percorrendo os departamentos e alinhando prioridades com as equipes. A proximidade com o time é essencial para garantir consistência, agilidade e excelência na execução.

Ao longo do dia, priorizo a presença ativa nos pontos de contato com o hóspede — lobby, restaurantes e áreas sociais —, porque acredito que a verdadeira excelência não está apenas nos processos, mas na experiência percebida.

Mais do que gerir indicadores, meu foco está em antecipar expectativas, interpretar comportamentos e transformar cada interação em uma oportunidade de elevar o padrão de serviço. Em hospitalidade de luxo, o invisível — aquilo que o hóspede sente, mas não necessariamente vê — é o que define a experiência.

Chico Vartulli – A integração de sua família ao novo país tem sido fácil?

Carlos Mugnaini – A transição internacional da minha família tem sido conduzida com leveza e, sobretudo, com um acolhimento genuíno por parte da Argentina. Esse fator humano é determinante para o sucesso de qualquer movimento global.

Meu filho está plenamente integrado ao ambiente escolar, que oferece um alto nível acadêmico aliado a estímulos culturais relevantes. Minha esposa, por sua vez, tem explorado, com sensibilidade e entusiasmo, as expressões culturais locais, incorporando novos interesses e experiências.

Mais do que adaptação, estamos vivendo um processo de expansão. Cada novo contexto nos convida a aprender, a nos reinventar e a fortalecer nossos vínculos.

Chico Vartulli – Quais foram as suas outras experiências no exterior?

Carlos Mugnaini – Ao longo da minha trajetória, busquei, intencionalmente, construir um repertório internacional sólido, viajando por diversos países nas Américas e na Europa. Essas experiências sempre tiveram um propósito: compreender culturas, observar comportamentos e absorver diferentes padrões de serviço.

Tenho uma conexão especial com a Espanha, onde vivi períodos significativos e desenvolvi uma forte admiração pela forma como cultura, gastronomia e hospitalidade se integram.

Em cada destino, procuro me inserir de forma respeitosa e ativa, entendendo que a verdadeira sofisticação está na capacidade de adaptação e na leitura sensível do ambiente. Essa vivência internacional é um ativo estratégico para qualquer líder na hotelaria contemporânea.

Mugnaini em Granby, Colorado, EUA 2006.

Chico Vartulli – A vida de um hoteleiro é caminhar por vários países?

Carlos Mugnaini – A hotelaria, em sua essência, transcende fronteiras físicas. Ser hoteleiro é receber o mundo diariamente e ter a capacidade de traduzir diferentes culturas em experiências personalizadas.

Embora a mobilidade internacional amplie repertório e visão, o verdadeiro diferencial está na habilidade de compreender o outro — suas expectativas, seus códigos culturais e sua definição de excelência.

Viajar é, sem dúvida, um catalisador de aprendizado. Mas, na prática, a grande jornada do hoteleiro acontece dentro do próprio hotel, onde cada hóspede traz consigo um universo único. Nosso papel é interpretar esse universo e transformá-lo em uma experiência memorável.

Chico Vartulli – Sua passagem pelo Roxy Dinner Show foi importante em sua carreira?

Carlos Mugnaini – O Roxy Dinner Show representou um marco estratégico na minha trajetória. Foi uma oportunidade singular de atuar na concepção, no desenvolvimento e na operação de um produto que transcende a hotelaria tradicional, integrando entretenimento, gastronomia e experiência de alto padrão.

Participar da construção de um projeto dessa magnitude — capaz de atender até 700 pessoas por noite com excelência, consistência e sofisticação — exigiu uma abordagem multidisciplinar, precisão operacional e forte liderança de equipe.

Mais do que um desafio, foi um laboratório de inovação. Consolidou minha capacidade de estruturar operações complexas, alinhar expectativas e, principalmente, entregar experiências que dialogam com padrões internacionais.

Foi nesse contexto que reforcei uma convicção que carrego até hoje: no segmento de luxo, excelência não é um objetivo — é um compromisso contínuo.

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação 

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Coluna comandada por Chico Vartulli, Vivências internacionais trazem uma série de entrevistas com personalidades onde falam sobre suas experiências e curiosidades no exterior sobre cultura, arte e diversão.

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