Há textos que não terminam quando viramos a última página. Eles continuam circulando pela cabeça, abrindo corredores de pensamento. É exatamente essa sensação que o conto “A procura de uma dignidade”, de Clarice Lispector, provoca — e que a montagem dirigida por Gilberto Gawronski potencializa no palco através da iniciativa de Ana Beatriz Nogueira. A peça chega a São Paulo, de 6 a 29 de março no Teatro YouTube, na capital paulista, depois do sucesso da estreia no ano passado.
A encenação faz com que a escrita de Clarice atravesse o espectador como um eco persistente, convidando a refletir sobre identidade, medo e desejo enquanto acompanhamos a jornada da enigmática Sra. Xavier.
Na história, a personagem sai de casa para assistir a uma palestra, mas por engano acaba perdida nos corredores subterrâneos do Estádio do Maracanã. O que começa como um simples equívoco espacial logo se transforma em outra coisa: um mergulho interior. Enquanto procura uma saída, Sra. Xavier parece também procurar a si mesma, atravessando uma paisagem de pensamentos, lembranças e inquietações típicas do universo clariciano.
É nesse território delicado entre literatura e cena que brilha a interpretação de Ana Beatriz Nogueira. Um dos nomes mais sólidos da atuação brasileira, a atriz construiu uma trajetória de mais de quatro décadas entre cinema, televisão e teatro. No cinema, ganhou projeção internacional ao protagonizar Vera (1986), papel que lhe rendeu o Urso de Prata de Melhor Atriz no Festival de Berlim. Na televisão, acumulou personagens marcantes em novelas e séries. Já nos palcos, vem se dedicando a trabalhos de alta densidade dramatúrgica — como o recente monólogo Sra. Klein, que lhe garantiu o Prêmio APTR de Melhor Atriz em 2024.
A montagem assume uma linguagem abertamente performática. Palavra, imagem, projeções e presença se cruzam em cena para transformar o conto literário em experiência sensorial. Mais do que simplesmente narrar a história, o espetáculo parece nos colocar dentro dela — como se também estivéssemos caminhando por esses corredores mentais.

Há, aliás, algo inevitável nesse encontro entre atriz e autora. Leitora antiga de Clarice, Ana Beatriz já havia levado aos palcos o espetáculo Um dia a menos. Agora retorna ao universo da escritora com esta adaptação do conto publicado em 1974. Em cena, a atriz conduz o público por essa travessia íntima que mistura humor sutil, estranhamento e uma inquietação filosófica muito própria da autora. Afinal… o que carece Clarice esclarecer, como indaga a canção de Tom Zé, parte da trilha sonora da peça:
“Carece, Clarice, esclarecer
Poder nascer e renascer
Tão solene, tão solar
Corajoso coração
E sem ter unguentos aguentar
O pregão das pragas no portão
Tensa resistência
E no sul do absurdo supor
Uma grota, uma porta, uma rota
Para o contra se contra fazer
Nesse quarto minguante que míngua
Uma língua”
A primeira experiência de Ana com esse conto aconteceu em 2021, em plena pandemia, quando dirigiu uma versão curta para a atriz Sandra Pêra em seu “Teatro Sem Bolso”, uma experiência intimista transmitida pela internet a partir de sua própria casa. O reencontro com o texto, agora em formato de espetáculo, revela novas camadas da obra.
Na encenação, Gawronski busca explorar as múltiplas camadas da personagem dando protagonismo à potência literária de Clarice através de Ana Beatriz. A Sra. Xavier, criada nos anos 1970, afinal, parece dialogar perfeitamente com as inquietações da mulher contemporânea.
O público entra nesse jogo pela via da identificação — ou pelo menos da inquietação. Afinal, quem nunca se perdeu em algum corredor da própria cabeça? Em determinados momentos, a própria atriz comenta ou dialoga com o material literário, numa espécie de relação direta com o espectador. Ana costuma brincar definindo o espetáculo como um “stand up book”: uma narrativa literária que ganha corpo vivo diante da plateia.
A encenação também incorpora recursos de vídeo e projeções — uma linguagem cada vez mais presente no teatro contemporâneo. Aqui, esses elementos aparecem de forma elegante, sem competir com aquilo que continua sendo o verdadeiro motor da cena: o encontro entre atriz e palavra.
E é justamente nesse território essencial que a montagem encontra sua força. No palco, diante do público, Ana Beatriz Nogueira reafirma algo que o teatro sempre soube: quando interpretação e literatura se encontram no ponto certo, o resultado é capaz de reverberar muito além da duração do espetáculo.
Serviço
A Procura de uma Dignidade
📍 Teatro YouTube — Rua Pamplona, 310 — Bela Vista — São Paulo
🗓️ Temporada: 6 a 29 de março de 2026
🕗 Sessões: sextas e sábados, 20h | domingos, 18h
🎟️ Ingressos: bilheteria do teatro e plataforma Eventim
⏱️ Duração: 45 minutos
🔞 Classificação: 14 anos

Texto: Rodolfo Abreu (@rodolfoabreu)
Imagens: Divulgação; Nil Canine



