A trajetória de Gabriel Pimparel revela o caminho de um jovem bailarino português que conquistou espaço no cenário internacional da dança. Nesta entrevista, ele fala sobre os primeiros passos no ballet, a sua formação em instituições de prestígio e a mudança para a República Tcheca, onde desenvolve atualmente a sua carreira. Ao longo da conversa, compartilha influências, experiências em palco e os desafios da profissão. Também reflete sobre o que define um bailarino e a importância da expressão artística para além da técnica. Por fim, revela os seus planos futuros e a busca constante por evolução no universo da dança.


Chico Vartulli – Quando você começou a se interessar pela dança?

Gabriel Pimparel – Diria que o meu início no mundo da dança aconteceu quase por “coincidência”. Tinha cinco anos e frequentava o jardim de infância quando surgiu um projeto chamado Porto de Crianças, desenvolvido pela Câmara Municipal do Porto. Este projeto tinha como objetivo reforçar os planos curriculares e a atividade letiva na área da educação artística, abrangendo disciplinas como dança, música, teatro, pintura e escultura.

Digo que foi uma coincidência porque tive a sorte de, no meu ano escolar, o ballet ter sido a disciplina introduzida. Foi nesse contexto que tive as minhas primeiras aulas e que começou a despertar em mim um interesse pela dança e pelo poder do movimento. De certa forma, sinto que não fui eu que procurei a dança numa primeira instância; foi a dança que veio até mim.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação como bailarino?

Gabriel Pimparel – Após o projeto mencionado anteriormente, foi-me atribuída uma bolsa de 100% para ingressar no Centro de Dança do Porto, onde desenvolvi grande parte da minha formação durante cerca de dez anos. Foi um período muito importante, no qual descobri uma verdadeira paixão pela dança. Na altura, conciliei sempre o treino intensivo com os estudos académicos de forma independente, o que exigia grande disciplina e dedicação. Durante esse período, tive também a oportunidade de participar em diversos espetáculos e competições, tanto a nível nacional como internacional — experiências que contribuíram muito para o meu crescimento artístico e pessoal.

Aos 15 anos, mudei-me para Londres para dar continuidade à minha formação na English National Ballet School. Durante três anos, tive a oportunidade de trabalhar com diferentes professores e coreógrafos, explorar repertório clássico e contemporâneo e adquirir uma grande experiência de palco. Entre esses momentos, destaco a oportunidade de dançar repertório de coreógrafos como Sir Frederick Ashton, August Bournonville e Pina Bausch, bem como participar no projeto coreográfico das escolas parceiras do Prix de Lausanne, em 2023, onde trabalhei com o coreógrafo Goyo Montero na criação de uma nova peça.

Em 2024, tive ainda a oportunidade de participar no Prix de Lausanne como candidato à competição — uma experiência muito marcante para mim e a realização de um sonho de infância.

Após concluir os meus estudos em Londres nesse mesmo ano, mudei-me para a República Tcheca para integrar a companhia júnior do Teatro Nacional de Brno, iniciando assim o meu percurso profissional.

Chico Vartulli – Quais são as suas principais referências (teóricas e práticas) na área da dança?

Gabriel Pimparel – Inspiro-me muito no trabalho de diferentes coreógrafos e nas tradições do ballet clássico, que continuam a moldar a forma como penso o movimento e a interpretação. Ao longo da minha formação, tive a oportunidade de trabalhar com professores e ensaiadores com percursos muito distintos e metodologias de ensino variadas, cada um trazendo uma perspetiva própria sobre musicalidade, estilo ou qualidade de movimento.

Essas experiências acabam por influenciar bastante a forma como abordo o trabalho, tanto no estúdio como em palco. Para mim, a dança constrói-se precisamente a partir desse diálogo constante entre tradição, aprendizagem e evolução.

O badalado bailarino Gabriel Pimparel em ensaio fotográfico, em grande estilo, na República Tcheca. Fotografia: Remos

Chico Vartulli – Quais são os bailarinos cuja dança lhe inspirou?

Gabriel Pimparel – Ao longo do meu percurso, tenho-me inspirado em vários bailarinos diferentes. Acredito que, na dança, é muito enriquecedor podermos inspirar-nos em qualidades distintas de diferentes intérpretes — seja na musicalidade, na presença em palco ou na abordagem técnica — e ir absorvendo esses elementos para desenvolver a nossa própria identidade artística.

No entanto, existem duas figuras que sempre foram grandes referências para mim: Carlos Acosta e Marcelino Sambé. Sempre admirei a força, o carisma e a presença em palco de Carlos Acosta, aliados a uma precisão técnica extraordinária, que lhe permitiram construir uma carreira verdadeiramente notável.

Marcelino Sambé é também uma grande inspiração para mim, especialmente por ser português. Admiro muito a sua musicalidade, versatilidade e a forma inteligente e sensível como aborda cada papel.

Chico Vartulli – Quais são os ballets que você mais gosta de dançar?

Gabriel Pimparel – Ao longo do meu percurso, tive a oportunidade de dançar em diversos ballets, cada um deles especial à sua maneira. Um dos que mais me marcou até agora foi Don Quixote, na versão coreografada por José Carlos Martinez, atual diretor do Ballet de l’Opéra de Paris. Trata-se de uma produção vibrante e cheia de vida, com uma energia contagiante que se sente não só no movimento, mas também na música, nos figurinos e na riqueza visual dos cenários. É um ballet muito dinâmico, que transmite grande alegria ao público e no qual sinto sempre um enorme prazer em dançar.

Destaco também a oportunidade de interpretar o papel de Blue Boy no ballet Les Patineurs, de Sir Frederick Ashton, na minha apresentação de graduação em Londres. É um papel particularmente exigente, tanto a nível técnico como estilístico, que requer grande precisão, musicalidade e clareza de movimento. O processo de preparação foi extremamente enriquecedor e permitiu-me desenvolver muito a minha compreensão do estilo de Ashton. Foi uma experiência muito especial e um momento que guardo com particular carinho.

Chico Vartulli – Você poderia comentar sobre o Teatro Nacional de Brno?

Gabriel Pimparel – A companhia de ballet do Teatro Nacional de Brno é uma das mais importantes da República Tcheca e possui uma tradição de mais de um século, apresentando um repertório bastante diversificado que inclui tanto grandes clássicos como criações neoclássicas e contemporâneas.

No dia a dia, o funcionamento é semelhante ao de muitas companhias: existe um horário regular de aulas e ensaios, preparação de repertório e apresentações ao longo de toda a temporada. O ambiente é bastante internacional, com bailarinos de várias nacionalidades, o que torna o contexto artístico muito estimulante.

Desde que me juntei à companhia, há cerca de um ano e meio, já tive a oportunidade de dançar num repertório bastante amplo, incluindo ballets como O Lago dos Cisnes, O Quebra-Nozes, Don Quixote, Romeu e Julieta, Cinderella, La Bayadère, Cyrano de Bergerac e Coco Chanel, entre outros. Tive também a oportunidade de participar em digressões internacionais, passando por países como Emirados Árabes Unidos (Dubai), Macau, Finlândia e Polónia.

A companhia apresenta um grande número de produções ao longo de cada temporada, o que proporciona aos bailarinos muita experiência de palco. Considero isso fundamental na vida de um bailarino, pois a confiança e a maturidade artística desenvolvem-se sobretudo através da prática e da experiência em palco. Para mim, tem sido uma experiência extremamente enriquecedora trabalhar num contexto artístico tão dinâmico e diverso.

O bailarino Gabriel Pimparel em sessão fotográfica para audições. Fotografia: Photography by ASH

Chico Vartulli – Como você define um bailarino?

Gabriel Pimparel – Para mim, um bailarino transcende a mera execução de movimentos tecnicamente perfeitos a todo o instante; é alguém capaz de encarnar emoções e narrativas através do corpo, transformando o movimento em expressão.

A técnica, sem dúvida, é indispensável — sem ela não seria possível transmitir com segurança e clareza —, mas a verdadeira essência de um bailarino reside na capacidade de se conectar consigo mesmo e com o público, conferindo significado e intenção a cada gesto.

É alguém que se dedica incessantemente ao aperfeiçoamento, que procura evoluir e aprofundar constantemente a sua prática, sem nunca abdicar da paixão, da curiosidade e da sensibilidade artística.

Para mim, a dança sempre surgiu como um veículo de expressão e comunicação, e acredito que esse deve ser o imperativo principal a preservar. Hoje em dia, por vezes, esse lado pode ser ofuscado na busca pela excelência técnica, mas é precisamente essa essência que torna cada interpretação memorável e singular.

Chico Vartulli – Quais são os seus planos futuros?

Gabriel Pimparel – O meu principal objetivo é continuar a dançar por muitos mais anos e manter um corpo saudável que me permita fazer aquilo que amo ao longo de uma carreira que espero que seja longa. Gostaria de ter a oportunidade de interpretar uma grande diversidade de ballets clássicos e de trabalhar com diferentes coreógrafos contemporâneos e neoclássicos, cada um com a sua linguagem e visão artística.

Interessa-me particularmente participar em novas criações. O processo coreográfico de desenvolver uma peça de raiz é algo que considero extremamente inspirador — a possibilidade de colaborar na construção de um trabalho novo e de contribuir com a própria interpretação e identidade artística para algo que poderá vir a ser apresentado durante muitos anos por diferentes companhias.

Ao mesmo tempo, procuro manter uma mente aberta em relação ao futuro. Não sei exatamente por onde o meu percurso me levará — em que países irei viver ou em que companhias terei a oportunidade de dançar — e, de certa forma, isso também faz parte da beleza desta profissão.

Tento aproveitar ao máximo cada etapa do caminho. Claro que pensar no futuro e planear é importante, mas acredito que também é fundamental valorizar as experiências e oportunidades que surgem em cada momento, porque muitas vezes estamos tão focados nos próximos passos que nos esquecemos de viver plenamente aquilo que estamos a construir no presente.

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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