Com uma trajetória artística que atravessa 25 anos de pesquisa, experimentação e reflexão sobre a fragilidade humana, o artista visual Renato Bezerra de Mello construiu uma obra marcada pelo diálogo entre matéria, memória e tempo. Transitando por diferentes linguagens e materiais — muitos deles frágeis, descartados ou carregados de história —, sua produção propõe um olhar crítico sobre as ruínas culturais, as heranças coloniais e as possibilidades de reinvenção. Em cartaz no Paço Imperial com a exposição Tudo o que é frágil brilha sem medo do esplendor, o artista revisita momentos decisivos de seu percurso e reafirma a ruptura como potência criativa. Nesta entrevista, Renato fala sobre formação, processos, referências e o papel da arte no mundo contemporâneo, revelando o pensamento sensível e crítico que sustenta sua obra.
Chico Vartulli – Ao olhar para seus 25 anos de produção artística, que transformações, continuidades ou deslocamentos você reconhece no seu percurso?
Renato Mello – A prática artística atravessa todas essas questões. No meu caso, trabalho com uma variedade de materiais que carregam suas próprias histórias, somadas às minhas e às que despertaram meu interesse por eles. Da convivência com esses materiais e narrativas surgem os trabalhos, em processos de deslocamento físico e mental e de transformação contínua — das coisas ao meu redor, de mim mesmo e, talvez, também de quem me acompanha ao longo do tempo. São deslocamentos sutis, cotidianos, sem pretensão espetacular. A continuidade também marca esse percurso: desde o início da minha trajetória, venho abordando a fragilidade humana em contraste com suas pretensões de poder e eternidade.
Chico Vartulli – Como nasceu o projeto da exposição “Tudo o que é frágil brilha sem medo do esplendor”?
Renato Mello – Fui convidado pela curadora Paula Terra-Neale a integrar o programa de exposições do Paço Imperial e apresentei um projeto que revisita meus 25 anos de trajetória artística. A partir dessa conversa, escolhemos trabalhar com um conjunto de cacos de vidro e cristais guardados no ateliê há 21 anos, provenientes de uma coleção de copos formada ao longo de duas décadas. A quebra dessa coleção marca um momento decisivo do meu percurso, ligado à minha primeira exposição no Brasil após a transição da arquitetura para a arte, em 2000, quando vivia na França. Embora o ato de quebrar vidros e cristais carregue uma violência evidente, o que resta dessa ação, registrado nas fotografias de Wilton Montenegro, revela uma beleza frágil e inesperada. Inspirada na música Pra começar, de Marina Lima e Antônio Cícero, a obra afirma a ruptura não como espetáculo, mas como exercício cotidiano de reinvenção, entendendo a tradição como matéria viva, passível de transformação e recriação.

Chico Vartulli – Que núcleos de obras ou processos estão presentes na exposição e como eles dialogam entre si?
Renato Mello – Os trabalhos desta exposição partem da ideia de não reconstruir as ruínas do velho mundo. “Quebrou, não tem mais jeito” — verso que dá título a um bordado em um lenço de bolso de meu pai — funciona como croqui do trabalho central, Caquinhos: um grande desenho multicolorido formado por milhares de fragmentos de vidro e cristais dispostos sobre um tablado no centro da sala. Em diálogo com essa obra, surgem os Amalgamados — vidros e cristais fusionados em fornos — e os Estilhaçados, resíduos mínimos da coleção de copos, selecionados por um processo quase arqueológico de peneiramento e catalogação iniciado em 2004. Projeções de ruínas de uma casa-grande e de uma antiga fábrica da minha família, no Recife, dialogam com o próprio Paço Imperial, ruína ativa da história colonial, articulando diferentes camadas de tempo e matéria. O conjunto é atravessado pelo som de cristais quebrados, evocando uma tradição dissonante que insiste em permanecer. A exposição propõe, assim, não recompor o que foi fragmentado, mas habitar a fragilidade, afirmando a ruptura como possibilidade de transformação, reinvenção e continuidade.
Chico Vartulli – Em que momento você percebeu que a prática artística seria um campo central da sua vida, o que motivou essa escolha e como se deu sua formação?
Renato Mello – Sempre tive o desejo de ser artista. Ainda na Faculdade de Arquitetura, no Recife, uma professora observou que eu já o era, embora eu não tivesse plena consciência disso. Formei-me e atuei como arquiteto, vindo depois para o Rio de Janeiro, onde trabalhei na Fundação Pró-Memória e na Funarte, com foco na restauração de edifícios históricos. Cursei, na PUC-Rio, programas de História da Arte e Arquitetura no Brasil, e Arte e Filosofia, ao mesmo tempo em que frequentei cursos práticos no Parque Lage, nos anos 1990, com João Magalhães, Kate Van Schœnberg, Luis Ernesto e Nelson Leirner. Foi justamente quando pensava em abandonar esse percurso que ocorreu o movimento inverso. Por razões pessoais, fui para a França e, por meio de um intercâmbio entre o Parque Lage e a École Nationale des Beaux-Arts, cheguei aos ateliês de Annette Messager e Christian Boltanski, iniciando a trajetória artística que hoje completa 25 anos. Desde então, a formação segue como um processo contínuo, alimentado pela prática, pelo diálogo, pelas experiências e pelas transformações do tempo.

Chico Vartulli – Quais são as suas principais referências no campo das artes plásticas?
Renato Mello – As ruínas da fábrica apresentadas na exposição estão entre os primeiros lugares que despertaram meu interesse pela arte. Os espaços da fiação, tecelagem e estamparia me fascinavam — hoje atravessados pela memória. Essa formação sensível inclui também as artes do barro, da palha e da madeira, a tecelagem manual, o bordado e a renda, presentes na minha vivência no Nordeste. Somam-se a elas a arte plumária e a cestaria indígena, conhecidas ainda na infância, além da música, da poesia e dos repentistas. Essas raízes se entrelaçam a referências de outros tempos e lugares — da Antiguidade às pinturas rupestres, do Egito à arte europeia, da arquitetura moderna brasileira às arquiteturas de terra — e se atualizam no contato com artistas contemporâneos que questionam estruturas de uma cultura marcada pela colonização. Todas essas camadas se somam em um processo contínuo de formação, deslocamento e transformação.
Chico Vartulli – Existe uma ideia de arte que atravessa sua produção ao longo do tempo? Como você a definiria hoje?
Renato Mello – A arte é a melhor maneira que encontro de questionar o mundo em que vivemos. Gosto muito da ideia de, por meio do meu trabalho, remar contra a maré e habitar a terceira margem. Procuro fazer isso desafiando o tempo, por meio de manualidades de feitura longa e lenta, utilizando materiais frágeis, não necessariamente associados à produção de obras de arte — muitas vezes materiais descartados, rejeitados até. Dedico tempo e atenção ao frágil, ao quase imperceptível, ao que parece inútil, valorizando coisas e gestos que o mundo que questiono insiste em desconsiderar.
Chico Vartulli – Qual é o papel do artista no contexto contemporâneo, especialmente em tempos de instabilidade e sobreposição de crises?
Renato Mello – A maior conquista da arte — ou do artista — é a liberdade, algo difícil de alcançar em outras áreas do trabalho. O artista precisa conquistar essa liberdade e também ser livre para escolher seu papel, que me parece ser aquele que se desenrola na “terceira margem do rio”, mesmo quando ele não tem plena consciência disso. Para mim, fazer arte é uma das melhores formas de lidar com o mundo em que vivemos: um ato de resistência, um estado de alerta e uma possibilidade de denúncia. É também uma maneira de encantar e de fazer ver — ou sentir — que existem outras formas de estar e agir na vida.
Chico Vartulli – Que caminhos, investigações ou projetos você vislumbra para os próximos anos?
Renato Mello – Recorro à poesia para responder a essa pergunta.
Dois fragmentos me acompanham há muitos anos, apresentados por amigas muito queridas. Um deles é de Antonio Machado, poeta espanhol, que escreve: “Caminhante, não há caminho, faz-se o caminho ao caminhar.” O outro é de António Gedeão, poeta português, que diz: “Eles não sabem, nem sonham, que o sonho é a vida. Que, sempre que o homem sonha, o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.” Espero continuar caminhando e sonhando por muitos anos e convido você a me acompanhar nesse caminhar.
Fotos: Arquivo Pessoal/Divulgação


