A dramaturgia de Pedro Kosovski é uma adaptação de Lutas e Metamorfoses de uma Mulher e Monique se Liberta, duas obras do escritor francês Édouard Louis. O texto é dramático, emocionante, autobiográfico; mescla momentos de tensão e afeto; é crítico, reflexivo, relacional, antimachista, antiviolência contra a mulher e os gays, antiopressão; ataca o patriarcado, defende a liberdade dos corpos e é contemporâneo. O texto é uma denúncia contra a sujeição e a opressão dos corpos femininos e dos gays, e uma afirmação da liberdade, do direito de falar e se expressar, de não se silenciar e não se apagar.
Malu Galli e Tiago Martelli formam uma dupla de atores magistral. Ela interpreta Monique, a mãe humilhada pelo marido alcoólatra, e Tiago interpreta o filho escritor, Édouard Louis, também maltratado e homossexual. Eles são mãe e filho, mas também mulher e gay, que tiveram suas vidas marcadas pelos maus-tratos e humilhações. Estão unidos, entrosados e afinados. Interpretam com qualidade e emocionam. São comoventes e intensos. Fazem chorar! Dominam o texto, transmitindo-o com clareza, com uma linguagem simples, e estabelecendo diálogos ágeis e profundos. Dominam o palco, preenchendo todos os espaços. Estabelecem uma boa comunicação com o público. Portanto, uma atuação notável.
A direção de Inez Vianna é potente e precisa, dando efervescência ao espetáculo e direcionando a excelente apresentação dos dois atores.
O figurino de Ticiana Passos é simples, adequado e facilita o deslocamento dos atores pelo palco. São roupas do cotidiano.
A cenografia de Dina Salem Levy é criativa, bem elaborada, clean, em tom esverdeado, e disposta de forma adequada pelo palco.
Ao fundo, há uma parede cenográfica que se transforma em tela, onde são exibidas imagens; bem como essa mesma parede é móvel e, ao ser aberta, funciona como um espaço com uma percussão, onde Monique adentra para tocar — um momento de libertação!
O desenho de luz criado por Aline Santini apresenta contribuição para realçar a interpretação dos atores. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas.
A direção de movimento é de Denize Stutz, que deu um caráter frenético à movimentação, sobretudo à personagem Monique, inquieta e pulsante, que se traduz no ritmo da percussão.
A trilha sonora criada por Felipe Storino traduz o espírito intenso da peça, em especial a canção do grupo Scorpions, Wind of Change, na qual Monique se esbalda.
Texto, direção, cenografia, figurinos e iluminação formam um conjunto harmônico e coeso, evidenciando a qualidade do espetáculo.
Excelente produção cênica!



