A dramaturgia de Carolina Ferman e Natasha Corbelino é livremente inspirada no livro “O Olho do Crocodilo”, da filósofa australiana Val Plumwood. O livro relata um episódio real: sua experiência de quase morte quando, andando de canoa num parque na Austrália, foi atacada por um crocodilo e arrastada para o fundo do rio, em 1985. Esse fato revela a ambição do ser humano em querer conquistar, submeter e dominar o mundo da natureza. Mas há limites. Um crocodilo é um animal selvagem, remanescente dos grandes répteis que já habitaram o planeta Terra, e o ataque à bióloga deixa transparecer o quanto somos frágeis frente a esse universo.
A dramaturgia se apropria do acontecimento narrado, um acidente sofrido por uma mulher quando atravessava um rio numa canoa, atacada por um crocodilo, e o transporta para o campo social, passando a refletir sobre a vulnerabilidade humana. O crocodilo, a fera do lago, passa a ser ressignificado e se transforma num ser feroz, misógino, estúpido, dominador, opressor, mantenedor das hierarquias de gênero, um representante do patriarcado e limitador das liberdades femininas. E o texto quer explodi-los. Portanto, o texto tem um lado selvagem, o do crocodilo, a fera do lago, e o das “feras” da sociedade, os misóginos e machistas.
O texto tem também uma perspectiva ecológica: o respeito ao espaço dos elementos do mundo natural, os limites para adentrarmos os espaços das espécies e a aproximação com cautela, e o não enfrentamento às forças da natureza, pois somos vulneráveis.

A atuação é de Carolina Ferman. Ela atua com determinação e firmeza, interpreta com qualidade e emociona. Ela não está sozinha no palco: contracena com uma caixa de som, criação da própria atriz, transformando-a em personagem. Ao levá-la para a cena, deixa transparecer a incorporação dos meios técnico-científicos, incrementando a apresentação do espetáculo. Carolina e a caixa estabelecem diálogos, falam juntas — uma voz com a sua voz natural, a outra por meio de uma faixa de som gravada. Uma fala em português, a outra em inglês. Carolina senta sobre a caixa e transporta-a para todos os cantos da ribalta. Elas estão juntas, unidas e associadas. Humano e tecnologia estão de mãos dadas. Portanto, uma atuação potente e convincente.
A direção de Natasha Corbelino focou no texto e deixou a atriz livre para interpretar a sua personagem, contando com a parceria da caixa de som, a aliança humano e tecnológico. A cenografia é nula. O figurino criado é simples, um longo vestido preto, que facilita o deslocamento da atriz pelo palco.
A atriz se movimenta intensamente pelo palco, fato que dá dinâmica ao espetáculo, sob a direção de movimento de Georgia Tonus. A iluminação criada por Fernanda Mantovani apresenta um desenho de luz que contribui para realçar a interpretação da atriz. A variação luminosa acompanha o contexto das cenas, criando ritmo e dinamismo e complementando as falas.
Excelente produção cênica!


