Nesta entrevista, o arquiteto e urbanista Henock de Almeida revisita seus quarenta anos de carreira, destacando experiências marcantes, influências e projetos que definiram sua trajetória. Ele comenta sua formação, referências na arquitetura brasileira e internacional, e a importância de nomes como Sergio Bernardes e Oscar Niemeyer. Também aborda projetos relevantes, como o Paço Imperial e o Memorial Getúlio Vargas, além de analisar iniciativas urbanísticas atuais. Por fim, compartilha sua visão sobre o futuro e a motivação que o move na profissão.


Chico Vartulli – Olá, Henock! Qual é o balanço que você faz dos quarenta anos da sua trajetória como arquiteto?

Henock de Almeida – Nesses quarenta anos, trabalhei muito e me sinto profundamente privilegiado por fazer algo que me sensibiliza e dá prazer. Olhando para trás, vejo que consegui atingir um objetivo que não é fácil na arquitetura, que é fazer projetos diversos, fugindo da “especialidade” e da monotonia. Desenvolvi projetos autorais de museus, monumentos, teatros, escolas, entre outros, cada novo tema servindo para novas pesquisas e novas motivações para seguir em frente e ter entusiasmo pelo próximo projeto.

Chico Vartulli – Por que você escolheu a arquitetura como área de trabalho?

Henock de Almeida – Era um desejo, desde criança, mesmo não tendo nenhuma referência familiar. Não escolhi a arquitetura, nasci arquiteto.

Chico Vartulli – Como se deu a sua formação na área?

Henock de Almeida – Em três etapas. Na faculdade, no Rio de Janeiro, uma fase muito interessante de descobertas. Depois, como estagiário do arquiteto Sergio Bernardes, que me mostrou muitas outras possibilidades, com sua técnica apurada e sua visão humanista da arquitetura. Finalmente, minha pós-graduação na École d’Architecture Paris-Tolbiac, em Paris, onde morei por quatro anos.

Chico Vartulli – Quais são as suas referências (teóricas e práticas) na área da arquitetura?

Henock de Almeida – O Brasil, apesar de “jovem”, tem uma arquitetura muito rica. Primeiro, a arquitetura colonial portuguesa, com obras magníficas em várias cidades do país. Depois, desde o início do modernismo, uma geração de arquitetos de muito talento, como Bernardes, Niemeyer, Lucio Costa e Reidy. Fora do Brasil, claro, a referência de Le Corbusier. Também admiro muito as obras do arquiteto japonês Tadao Ando.

O arquiteto pensativo em seu escritório. 

Chico Vartulli – Qual foi a importância de ter trabalhado com o arquiteto Sergio Bernardes para a sua trajetória como arquiteto?

Henock de Almeida – Aprendi com Sergio a investigar e questionar. O escritório dele, na época, era conhecido como LIC – Laboratório de Investigações Conceituais. Sergio dizia que nenhum conceito deve ser aceito, mas sim investigado. Uma figura incrível, com uma personalidade ao mesmo tempo forte e doce. Um craque da arquitetura.

Chico Vartulli – Como se deu o processo de restauração do Paço Imperial da cidade do Rio de Janeiro?

Henock de Almeida – O IPHAN queria fazer diferente. Em vez de contratar uma construtora para a obra de restauro, decidiu montar uma equipe própria de arquitetos, mestres de obra e operários para tocar a obra com um olhar mais cuidadoso e interessado. Outro objetivo era formar mão de obra. Foram dois anos intensos, com uma intervenção de grandes proporções no prédio, que é um dos mais importantes do patrimônio arquitetônico e histórico do nosso país. Aprendi, no Paço, a amar e respeitar nossos prédios históricos. Fico feliz de ver que o Paço se tornou um importante centro contemporâneo de artes plásticas, inclusive está em festa agora, comemorando quarenta anos desde a restauração.

Chico Vartulli – O Memorial Getúlio Vargas é um projeto de sua autoria. Como você avalia hoje o projeto?

Henock de Almeida – Na época, o governo do estado abriu um concurso público nacional de arquitetura, com júri presidido por Oscar Niemeyer, que escolheu o meu projeto. A partir daí, desenvolvemos uma convivência e amizade por mais de trinta anos. Então, não posso falar do Memorial sem essa referência, um marco na minha carreira. Fiz um projeto extremamente autoral e completo, envolvendo a cidade, arquitetura, paisagismo, artes plásticas, interior e museografia, que conta não só a trajetória do político mais importante da história do Brasil, mas também a evolução da cidade do Rio de Janeiro durante a Era Vargas. É um equipamento público consolidado e com visitação constante de escolas públicas, o que me deixa muito satisfeito.

Henock preparando para apresentar projeto para cliente. 

Chico Vartulli – Como você avalia o programa Reviver Centro?

Henock de Almeida – Uma feliz conjugação das necessidades da população, vontade política da prefeitura e um bom negócio para a iniciativa privada. Todos saem ganhando, principalmente o Centro do Rio. Apartamentos, escritórios, comércio e cultura coabitando a mesma vizinhança é a receita de sucesso em todas as principais metrópoles do mundo. Os pontos de partida do urbanismo e da cidade ideal são a oferta de transporte público e infraestrutura, e essa é a grande vantagem do Centro do Rio. O Reviver Centro será um sucesso.

Chico Vartulli – No seu ponto de vista, qual foi a importância do arquiteto Oscar Niemeyer? Em que medida a obra arquitetônica produzida por ele se diferencia da dos outros arquitetos?

Henock de Almeida – Oscar conseguiu conjugar poesia e concreto armado, traduziu o modernismo para o barroco e fez uma das coisas mais difíceis em arquitetura: criar uma linguagem própria e única, que não aceita imitações. Ele foi e é um sucesso no mundo inteiro. O Brasil e a arquitetura brasileira têm muita sorte de ter tido um Oscar Niemeyer, e é nosso dever preservar o seu legado.

Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?

Henock de Almeida – Acordar todos os dias com alegria de viver e vontade de trabalhar. O que vier além disso é lucro.

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação 

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Chico Vartulli é colunista da Revista Vislun, arquiteto especializado em interiores e apaixonado por arte e cultura. Escreve sobre histórias, entrevistas e experiências do universo artístico.

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