Nome em ascensão no audiovisual brasileiro, o jovem cineasta Pedro Pinto Bravo vem chamando a atenção por uma produção autoral marcada por inquietação estética, experimentação narrativa e forte interesse pela psique humana. Com formação inicial no tradicional Colégio de São Bento e trajetória acadêmica ligada à UFRJ, Pedro construiu seu caminho no cinema a partir da prática, da vivência em laboratório e do diálogo constante com outras artes. Diretor do média-metragem EBA Cigana (2022), exibido em espaços relevantes do circuito cultural carioca, ele transita entre o cinema, a literatura e a poesia. Nesta entrevista, Pedro fala sobre sua formação, influências, processos criativos e projetos futuros, revelando o pensamento de um artista em pleno amadurecimento.
Chico Vartulli – Olá Pedro! Você teve uma formação em uma escola de ordem religiosa, o São Bento. Como foi essa experiência de formação?
Pedro Bravo – Foi uma experiência rigorosa, porque exigia muita disciplina e o colégio tinha uma visão muito conservadora e às vezes ultrapassada das coisas. Mas hoje, acredito que o saldo foi positivo. Apesar dos problemas que eu tive lá dentro, foi um colégio que me possibilitou aprender uma série de coisas que talvez não fosse possível em outro lugar, como por exemplo aulas de história da arte, cultura clássica, apreciação musical e uma boa carga de filosofia e sociologia. Na minha formatura, em 2015, fui o orador da turma e fiz um discurso considerado disruptivo pros padrões beneditinos. Mas guardo boas memórias de lá, especialmente da biblioteca, onde passei um bom tempo lendo livros que moldaram meu caráter.
Chico Vartulli – Quando você começou a se interessar pelo audiovisual?
Pedro Bravo – Em 2016, quando no começo do curso de Desenho Industrial, ingresso como Bolsista de Iniciação Artística e Cultural no Laboratório de Produção e Direção de Arte da UFRJ, do Prof. Enéas Valle. Em pouco tempo, eu estava desenvolvendo vídeos para a TV Honestino – o canal do laboratório no Youtube – inclusive tendo tido a oportunidade de criar do zero um programa de humor satírico, chamado TV H News, onde eu interpreto Maurício Maldonado, o apresentador mais famoso do mundo que ninguém conhece, que brinca com o cotidiano da Universidade e especialmente com a Escola de Belas Artes, que é onde o curso de Design e o Laboratório estão inseridos. Isso foi o começo da minha paixão pelo audiovisual, que mais tarde desencadeou no filme EBA Cigana (2022), um média metragem escrito e dirigido por mim, a respeito do fato de a Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro não possuir uma sede própria. É um filme de mistério e fantasia, mas sobretudo é um registro histórico, sobre uma instituição bicentenária que desde 1975 não possui um edifício para chamar de seu.

Chico Vartulli – E a paixão pelo cinema? Teve algum filme que foi um ponto de virada para você?
Pedro Bravo – É curioso, porque eu sempre gostei de filmes e já adorava certos cineastas, mas pra mim o ponto de virada pra eu me apaixonar de fato pelo cinema foi quando assisti A Estrada Perdida, do David Lynch. Pela primeira vez eu tive a sensação de ficar absolutamente deslumbrado com um filme, mesmo sem ter entendido nada. Acho que foi aí que eu descobri a verdadeira potência do cinema. Um filme não precisa ser decifrado pra ser poderoso. A compreensão de uma narrativa não é a única coisa que importa. Um filme pode agir de forma sensorial, intuitiva e até inconsciente. É capaz de acessar zonas profundas da mente e provocar sensações singulares em cada espectador. Foi particularmente isso que fez eu me apaixonar por cinema.
Chico Vartulli – Como se deu a sua formação no campo do audiovisual?
Pedro Bravo – É impossível falar sobre isso sem mencionar o meu professor Enéas Valle, um grande artista plástico, que foi pra mim uma espécie de mentor e até hoje um grande amigo. Foi quando eu ingressei no laboratório do Enéas que tive minha primeira experiência em realizar vídeos. Lá, eu aprendi a usar o Adobe Premiere na marra, mexer com uma câmera de gravação e até a me apresentar em público. Foi fundamental pra minha formação enquanto artista. Nesse período, eu fui aprendendo as coisas enquanto fazia, levando ao pé da letra o lema do laboratório: “O artista deve fazer duas vezes antes de pensar.” Foi com essa filosofia que fizemos o EBA Cigana e depois eu fui tocando meus próprios projetos. Já trabalhei como editor de vídeos em algumas ONGs e também já fui bolsista no Audiovisual da SGCOM UFRJ. Em agosto de 2025, decidi estudar cinema mais a fundo e aprender realmente como se faz um filme. Foi quando me matriculei num curso livre de cinema aos sábados na Academia Internacional de Cinema, em São Paulo, que teve fim em dezembro com a conclusão de um curta metragem muito legal, em que eu escrevi o roteiro e fiz a edição.
Chico Vartulli – Quais são as suas maiores referências do cinema nacional e internacional?
Pedro Bravo – Minhas maiores referências do cinema são Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick e David Lynch. Esses três representam pra mim a santíssima trindade dos diretores do cinema americano. Psicose, Laranja Mecânica e Cidade dos Sonhos são 3 dos meus favoritos desses caras. No cinema nacional, admiro muito Hector Babenco e Kleber Mendonça Filho. Pixote e O Som ao Redor são dois dos meus filmes brasileiros favoritos.

Chico Vartulli – Como foi o processo de criação do filme EBA CIGANA?
Pedro Bravo – Foi bem curioso, porque primeiro, não era pra ser um filme. Era pra ser uma minissérie de três episódios. No fim do dia, acabou virando um filme só, gravado em três partes. O Enéas me deu a chave do ateliê dele em Santa Teresa e, durante um mês, pude ir com a equipe gravar cenas improvisadas que acabaram entrando na primeira parte do filme. Depois, precisávamos filmar a segunda parte no Jardim Botânico e a terceira no prédio da FAU, no Fundão, locais que exigiam autorizações formais. Em todos esses momentos, o Enéas conseguiu as liberações necessárias e viabilizou as filmagens. Cada parte foi escrita num momento diferente, de forma que o roteiro foi costurado na montagem. Foi um processo bem diferente do que se costuma fazer e cheio de improvisos. No fim, juntamos as três partes e deu super certo.
Chico Vartulli – O filme alcançou uma circulação desejada?
Pedro Bravo – O filme teve seu lançamento na Cinemateca do MAM em julho de 22. Choveu muito no Rio aquela noite, mas ainda assim o auditório ficou cheio. Exibimos o filme também no Cinerama UFRJ, no campus da Praia Vermelha, ao lado do Pinel. O filme foi extremamente bem recebido lá e teve um ótimo debate no final. Também tivemos a oportunidade de fazer uma exibição no Parque Lage, com o apoio do artista e coordenador do parque, Alberto Saraiva. Hoje, o filme já está disponível no Youtube e conta com centenas de visualizações.
Chico Vartulli – Sobre quais assuntos você mais gosta de escrever?
Pedro Bravo – Eu me interesso muito sobre a psique humana e os estados alterados da mente. Sobre a linha tênue que divide o sonho da realidade e separa a fantasia da realização de um desejo. Gosto muito de escrever personagens que estão sempre angustiados com alguma coisa que eles mesmos criaram em suas cabeças. Isso me diverte bastante.
Chico Vartulli – Você já publicou três livros de poesia. Como você define poesia?
Pedro Bravo – Eu gosto muito da forma como Mallarmé definia. Ele dizia que a poesia tende ao silêncio. Eu concordo 100% com isso.
Chico Vartulli – Quais são os seus projetos futuros?
Pedro Bravo – Nesse momento estou no final do processo de montagem de um filme que gravei ano passado e muito em breve, estará pronto para concorrer em festivais. Esse ano pretendo gravar um curta no qual já venho trabalhando há um tempo, chamado O Homem Rato. E me matriculei no curso Filmworks da AIC – Academia Internacional de Cinema – o que significa morar durante dois anos em São Paulo, pra estudar e trabalhar. Estou animado com a mudança e acredito que o futuro guarda coisas interessantes.
Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação


